O trabalhoso processo até o brinde

Em maio estivemos Guga e eu por ocasião do Champagne Trophy 2013 em Vertus, no nordeste da França. Localizada no departamento de Marne, no coração da região de Champagne-Ardenne, a linda cidadezinha com suas originais praças floridas abriga além de um espetacular estande de tiro no meio de um dos mais charmosos vinhedos do mundo, inúmeras casas de Champagne.

Vertus - 2013

(Foto: Arquivo Pessoal) Laurent Perrot e sua família dirigem uma das mais belas casas de champagne da região.

Cada atirador pôde competir dois dias, sendo que só o primeiro valia para a premiação, e ao final de cada dia todos se reuniam no bar do clube onde cada um era recebido com um copo comemorativo cheio da bebida dos deuses.

Descobrimos que a doação era de uma das casas de Champagne de Vertus, de propriedade do prefeito da cidade, Pascal Perrot e do seu filho, Laurent, que junto com sua esposa Manuela dirigem a casa Perrot-Boulonnais Fils. Conhecemos Laurent, RO, e sua encantadora Manuela ao chegarmos ao stage 8 do campeonato. Laurent desenhou a pista, uma das mais complicadas e comentadas da prova. Foi ele também o autor de alguns loucos alvos móveis. Nos convidaram para fazer uma visita à Cave no dia seguinte à prova e ficamos cativados tanto com o que aprendemos sobre o processo de fabricação do Champagne, quanto com eles dois e seus três lindos filhos.

A região de Champagne produz os únicos vinhos espumantes do mundo que podem ter essa denominação (até a cidadezinha de Champagne na Suíça francesa perdeu o direito de colocar o nome da cidade nos rótulos dos vinhos produzidos na região). Feitos apenas com uvas Chardonnay, Pinot noir e Pinot meunier, o Champagne pode ser branco ou rosé. Seu processo de fabricação é demorado, caro e praticamente o mesmo de séculos atrás, com exceção de uma ou outra pequena tecnologia incorporada para facilitar a vida dos produtores.

(Foto: Arquivo Pessoal) Atletas - Hervé Grandgérard, Jérôme Poiret, Frank Garcia, Julien Bôit e Guillaume Bertrand - se reúnem para brinde após a prova.

(Foto: Arquivo Pessoal) Atletas – Hervé Grandgérard, Jérôme Poiret, Frank Garcia, Julien Bôit e Guillaume Bertrand – se reúnem para brinde após a prova.

O Champagne tradicional é produzido com uma mistura de uvas brancas e tintas, o blanc de blanc apenas com uvas brancas e o blanc de noir com uvas tintas. Nas vindímias excepcionais são produzidos os Millésimes, que declaram a safra. Além disso, existem as Cuvées de Prestige, de produção restrita, que é o melhor que a casa pode oferecer, sendo produzidas a partir de uvas especiais e envelhecidas por muitos anos, às vezes até em barris de carvalho, como antigamente.

A época da colheita das uvas é uma época de festas em toda a região, que requisita trabalho temporário de jovens de outras cidades e até de outros países. Trabalha-se muito durante o dia, mas à noite predominam a música, as conversas e os risos. Na casa de Laurent e Manuela é uma ocasião para rever a família de Manuela que mora em Portugal. Os dois se conheceram na época da faculdade, em Reims, e apesar de terem estudado na área biomédica, resolveram se casar e ir para Vertus tomar conta do negócio da família. As leis que regem a fabricação do Champagne são tão rígidas que Manuela contou que existem normas até para os quartos em que as pessoas ficam hospedadas durante as vindimas.

Depois de colhidas, as uvas são amassadas várias vezes até que se consiga a quantidade de suco exigido pela regulamentação do Champagne. Isto pode ser após 4, 5 ou até mais pressões. Esse suco é então colocado em tanques, ou em barris de carvalho, onde ele é vinificado. Alguns meses depois esses vinhos são misturados e engarrafados.

A segunda fermentação, própria do Champagne se dará nas adegas, já dentro das garrafas onde os vinhos recebem um composto de fermento e açúcar e são lacrados com tampinhas semelhantes às de cerveja. Acredita-se que o monge Dom Pérignon tenha sido o inventor dessa segunda fermentação.

Vertus - 2013

(Foto: Arquivo Pessoal) Na última fase do processo de fabricação champagne é engarrafado para descanso.

Após isso vem o período de descanso, de um a cinco anos (o período é maior para as garrafas safradas). Em seguida, as garrafas são colocadas em estantes com o gargalo para baixo e são giradas a cada dia (remuées) para descolar a borra e fazê-la descer para o gargalo, processo este que já é automatizado na maioria das Caves. Para retirar da garrafa o depósito da borra congela-se o gargalo, tira-se a cápsula e a borra é expulsa pelo gás sob pressão. O volume de Champagne da garrafa é então completado por uma mistura de vinho e açúcar chamado de licor ou vinho de dosagem. É a quantidade de açúcar presente neste licor que vai determinar se o Champagne será brut, demi-sec ou doux. Alguns não levam açúcar e são completados apenas com vinho.

A garrafa é então tampada com sua rolha de cortiça (para nossa surpresa ela tem forma cilíndrica antes de ser colocada) e fica mantida na adega para o envelhecimento necessário antes da comercialização. Quando ela sai, está pronta para ser consumida e o ideal é que ela não fique armazenada por muito tempo.

Santé!

Compartilhe

Esta entrada foi publicada em Turismo e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Os comentários estão encerrados.