As aventuras de um intercambista – Parte III

Atualmente vivemos em um mundo cada vez mais competitivo, no qual temos que absorver algo novo todo dia. Essa rotina, no mínimo acelerada, nos faz procurar meios mais sucintos e práticos de complementar nossa carreira profissional. E é justamente por isso que os intercâmbios estudantis tornam-se cada vez mais frequentes nas faculdades do Brasil. E, influenciado por este momento, decidi participar dessa jornada.

Cansado dos cursos de língua estrangeira no Brasil, com 10 anos de duração e sem resultado satisfatório, me planejei para fazer o famoso Work Experience, em um intercâmbio nos Estados Unidos. Esse tipo de jornada é muito edificante, pois além da nova cultura e exercício da língua local, é possível ganhar um bom salário dependendo da sua disposição.

A cidade é conhecida como a capital dos parques aquáticos.

(Foto: Arquivo Pessoal) A cidade é conhecida como a capital mundial dos parques aquáticos.

Normalmente estudantes que se propõem a fazer essa viagem sonham com as cidades californianas, as montanhas de ski mais conhecidas dos Estados Unidos e até mesmo com as metrópoles como Nova Iorque, Chicago e Dallas. Mas não foi bem assim que aconteceu comigo. Devido à dificuldade de emprego, aceitei algo um tanto quanto irreverente: ser lifeguard indoor (salva vidas)  em Wisconsin Dells, em um estado com mínimas de até 40°C negativos em sua história.

A primeira, segunda e terceira impressão da cidade foram péssimas. Muita rua e pouca gente, a maioria dos lugares fechados por causa do inverno e uma população quase que irrisória, com cerca de 3 mil habitantes. Achei que seriam apenas eu e meus quatro companheiros de casa, que por sinal era excelente e confortável.

Por vezes fiquei pensando como em uma cidade tão gelada existiam pessoas que iriam para um parque aquático, sendo que havia duas estações de ski nas proximidades. É aí que eu me enganei e onde começa a experiência.

Não tinha ideia que Dells era considerada a cidade da diversão dos EUA. Recheada de parques temáticos e aquáticos, o local é um dos destinos mais procurados durante o verão estadounidense e também como refúgio do inverno rigoroso do Tio Sam, visto que a média do inverno no estado chega a -11ºC e dentro dos parques temperatura ficava em torno de 25º.

Por inúmeras vezes os hotéis da cidade ficaram abarrotados e o parque onde trabalhava teve lotação máxima atingida. O trabalho e a cidade foram dominados pelos brasileiros e sul americanos, o que, na minha opinião, atrasa um pouco quem busca aprimoramento do inglês, mas o que também anima mais a pequenina região.

Podemos enumerar alguns pontos positivos e curiosos. Primeiro ponto,  Dells fica localizada a 40 minutos da capital do Estado de Wisconsin, Madison, e cerca de 2 horas de Chicago, capital de Illinois. Logo, tínhamos a facilidade de ir para cidades fantásticas em um curto espaço de tempo. Segundo, a região sofre um tipo de conurbação, onde não se sabe ao certo onde começa e termina uma ou outra cidade e por isso há pessoas em outros lugares, o que era um alívio. E o ponto mais interessante, o distrito possuía apenas duas boates para milhares de hóspedes por final de semana, e aí surgiam as grandes noites da temporada: house parties, isto é, festas em casa, bem ao estilo dos filmes que vemos no cinema.

(Foto: Aquivo Pessoal) O Kalahari é um dos diversos parques aquáticos da cidade de Dells

(Foto: Aquivo Pessoal) O Kalahari é um dos diversos parques aquáticos da cidade de Dells

Minha casa foi um desses lugares bem frequentados, onde pude receber amigos de viagem, do emprego e até mesmo meus chefes locais. E meus comandantes, desses não há o que reclamar, sempre foram extremamente úteis e prestativos com os “visitantes” que ali labutavam por um pouco de dinheiro e experiência. O trabalho era gratificante e, através deste, pude perceber a importância e o magnífico papel exercido pelos salva vidas aqui no Brasil. Fiz quatorze salvamentos nos três meses de trabalho e a cada resgate feito era aquela sensação de ter salvado uma vida. Momentos que na vida não tem explicação.

No parque aquático era possível ganhar em média 750 doláres por quinzena, uma das formas de pagamento nos EUA, todavia existia um grande escape  de dinheiro na cidade: o outlet. O complexo de lojas bem próximo a entrada dessa conurbação era algo assustador, pois era possível comprar peças com apenas cinco doláres na carteira. Encontrava-se todos os tipos de marca de roupa e a diferença de preço para o Brasil era absurda. Por isso, existia o desejo compulsório de comprar.

Aos poucos fui me apegando ao local, ao estilo de vida mais interiorano e sossegado. E como toda cidade de “veraneio”, as opções de restaurante eram fartas e não tive qualquer tipo de problema com alimentação, até porque, caso tivéssemos algum problema, podíamos cozinhar em casa.

Essa dualidade do frio intenso, quase congelante, e o trabalho em um clima de fazer suar era o aspecto mais exótico. Até porque por dezenas de vezes saí do trabalho e fui aos resorts de ski aproveitar o que de melhor a neve pode proporcionar, o snowboard. Assim que voltei ao Brasil, torcia para nevar todo dia só para poder voltar a praticar esse esporte tão viciante.

(Foto: widells.com) As estações de esqui também são os locais mais procurados durante o intenso inverno

(Foto: widells.com) As estações de esqui também são os locais mais procurados durante o intenso inverno

Depois dos meses de trabalho ainda pude desfrutar de férias e fazer mochilão por cidades deslumbrantes. San Diego, Las Vegas, Los Angeles, Santa Barbara, Miami. Porém o ponto alto dessa rota foi poder conhecer os vales do Grand Canyon. Um lugar hipnotizante, mais intrigante que todos os outros que já pude visitar no Brasil. Todo e qualquer minuto lá é válido.Hoje em dia sinto saudades desses dias de quase quatorze horas seguidas de trabalho, das festas, do frio, do pé na estrada, etc.

Em síntese, afirmo que o intercâmbio é a experiência mais fantástica que alguém pode ter em sua formação, pois engrandece todos os âmbitos da sua vida. Aprender a viver com as diferenças de uma nova cultura, um idioma diferente, pessoas com outro nível de educação. Espero ainda poder vivenciar outras situações como essa, mas, com certeza, sempre lembrarei dessa jornada.

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