As aventuras de um intercambista – Parte I

Decidir morar em outro país não é tarefa fácil para ninguém. Mas, independente do motivo, sair da sua cidade para morar no exterior, mesmo por pouco tempo, é sempre uma experiência enriquecedora. Cada vez mais a prática do intercâmbio cultural se torna comum, principalmente entre os jovens. Na maioria dos casos é preciso um trabalho árduo para convencer os pais, que procuram evitar que os filhos batam asas mais cedo. Foi assim comigo. Mas, depois de tanto insistir, consegui convencê-los e escolhi o meu destino: a cidade de Bournemouth, na Inglaterra.

(Foto: Sabrina Heyde) Mesmo em dias de sol na primavera as roupas de frio não são dispensáveis para ir à praia

A cerca de duas horas de Londres, a cidade fica localizada no litoral sul do país e faz parte de uma conurbação com as cidades de Poole e Christchurch. Ao optar por uma cidade pequena, minha ideia era fugir dos brasileiros e me concentrar apenas no estudo da língua. Claro que é praticamente impossível encontrar um lugar no mundo em que não haja um compatriota, mas, na medida do possível, meu objetivo foi alcançado.

Apesar de pequena, Bournemouth atrai muitos visitantes e intercambistas. Principalmente no verão, quando suas praias ficam lotadas. Além disso, é uma cidade universitária e tem muitas escolas para estrangeiros, reunindo uma grande quantidade de estudantes.

Optei por morar com uma família inglesa. Além do preço ser mais acessível, acredito que o aprendizado tenha sido maior. No total, éramos sete pessoas na casa. O casal e seus dois filhos pequenos, uma menina e um menino, além de outros dois estudantes estrangeiros. Confesso que minha primeira impressão não foi das melhores. Ao chegar a minha nova casa, não havia ninguém para me receber e tive que esperar do lado de fora no forte frio que faz na Inglaterra no início do ano. A casa não era das mais organizadas e o primeiro jantar, feito pelo pai da família, foi um desastre. Aliás, no geral a comida na Inglaterra não é das melhores. Em Bournemouth, a comida típica era o fish & chips. O problema é que o peixe com batata frita deles é banhado em gordura, nada saudável.

(Foto: Fernanda Reis) No verão, os jardins da cidade também se tornam ponto de encontro de jovens e famílias

Mas com o passar do tempo me acostumei e passei a gostar daquelas pessoas. Sempre jantávamos juntos, conversávamos e aprendi bastante com eles. E depois de cinco meses vivendo entre os Goddard, senti falta deles quando voltei ao Brasil. Posso dizer que dei sorte, pois ouvi muitos estudantes reclamando das famílias com quem estavam. Algumas controlavam o gasto com energia, o horário para tomar banho e ouvi histórias até de furto. Felizmente, não tive problemas.

O primeiro olhar sobre a cidade também não foi dos melhores. As ruas vazias, o frio intenso – ainda mais para um carioca – céu nublado e os parques sem cor. Fato curioso foi ver alguns surfistas dentro da água no meu segundo dia na Inglaterra. Como era possível eu estar todo agasalhado e ainda com frio, e eles no mar gelado? Diante dessas condições, logo desisti de conhecer a cidade ao ar livre e entrei em um dos típicos pubs ingleses. É realmente incrível o costume inglês de frequentar esses pequenos bares. Praticamente uma obrigação diária: após o trabalho passar em um pub e tomar uma cerveja. Ainda nos primeiros dias, descobri que a famosa pontualidade inglesa não é mais tão eficiente. Como em todos os lugares do mundo, o trânsito também é um problema na Inglaterra.

No primeiro dia de aula os novos alunos fazem um teste de nivelamento, para saber em qual turma ficarão. Por sorte, fiquei em um grupo sem brasileiros. Não tive problema algum com os professores, pelo contrário, todos foram sempre muito solícitos e, inclusive, saíamos juntos fora do horário de aula para jogar futebol e até ir a festas.

(Foto: memorialdomomento.blogspot.com.br) Pôr-do-sol no Pier de Bournemouth

Ah, as festas. Claro que entendo o lado dos pais que logo pensam: “ele foi pra lá para ficar nas festas ou estudar?”. Mas tenho que discordar desse pensamento. Afinal, era justamente quando saíamos fora do horário de aula que mais praticávamos. Sem falar em conhecer novas pessoas e ter outras experiências. Como quando a polícia interrompeu uma de nossas comemorações pelo alto barulho. Foi um pouco constrangedor, mas são em situações como essa que seu conhecimento da língua é realmente testado.

Tive oportunidades de viajar, inclusive com a escola, e conheci muitas cidades, tanto na Inglaterra quanto no resto da Europa. Em uma dessas viagens, para a Itália, eu e um amigo coreano conseguimos a proeza de pegar o trem errado, voltando de Florença para Parma, onde estávamos hospedados. Resultado da história, além de ter que passar a noite na estação de trem, quase perdemos o vôo para a Inglaterra.

Conheci pessoas de diferentes nacionalidades e costumes. Colombianos, espanhóis, suíços, russos, árabes, coreanos, alemães, italianos e outros. Hoje, me orgulho em dizer que tenho amigos nos quatro cantos de mundo, que fizeram parte do meu crescimento pessoal.

(Foto: Sabrina Heyde) Canteiro lembra a Bournemouth Air Fest, parecida com a as apresentações da Esquadrilha da Fumaça, no Brasil

Também conheci brasileiros, que se tornaram importantes durante a minha estadia na Terra da Rainha e com quem mantenho contato até hoje.

Não tenho queixas a fazer do meu intercâmbio cultural. O único ponto negativo é que os amigos que você faz se tornam importantes e, mais cedo ou mais tarde, todos acabam indo embora. Posso dizer que cresci não só “profissionalmente”, com o aprendizado do inglês, mas também tive um enorme crescimento pessoal. Portanto, se você está pensando em fazer uma viagem como essa, não tenha receio. Talvez nem tudo sejam flores, mas certamente cada situação que vivenciar servirá de aprendizado. E se seu filho está querendo fazer um intercâmbio, deixe. Tenho certeza que será uma experiência proveitosa e inesquecível.

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