Clubes de tiro são mais que apenas um local de provas

A criação de um clube de tiro prático pode ser entendida como o início de uma relação amorosa. Mesmo com a paixão à flor da pele, os envolvidos sabem que terão que abrir mão de determinados apegos e que precisarão se dedicar ao máximo para que a união dê certo. Certamente existirão momentos de crise, situações em que alguém terá que ceder, mas, no fim das contas, com certeza serão mais alegrias do que tristezas.

A relação existente entre o diretor e o clube de tiro prático funciona de forma parecida. Previamente todos sabem do esforço que terá que ser feito para organizar e regularizar o local, além da dor de cabeça que terão para manter as contas em dia e uma boa infraestrutura. Mas, se isso é verdade, quais motivos levam alguém a fundar ou dirigir um clube, então? A resposta é simples: “o amor pelo esporte é a única explicação”, afirma Robson Resende, atleta e ex-presidente do Clube de Tiro de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo.

(Foto: Wamberto Lyrio) Estandes de tiro do Clube Carcarás, em Feira de Santana, na Bahia

A opinião de Robson é compartilhada por outras pessoas ligadas diretamente com a direção ou fundação de um clube. “Um clube de tiro não dá retorno financeiro. Para se montar um clube é preciso ter amor pelo esporte e tempo para se dedicar ao clube”, comenta Denise Silva, vice-presidente da Associação de Tiro Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Na mesma linha de pensamento, Luiz Gemo, presidente do Clube de Tiro Prático de Fraiburgo, em Santa Catarina, garante que toda a dor de cabeça é superada pelas amizades e momentos de grande diversão que se tem em um clube.

Wamberto Lyrio, que acaba de fundar o Carcarás, na Bahia, decidiu criar o novo clube para não deixar os atletas de Feira de Santana sem um local para treinamentos e competições:

- O outro que tínhamos aqui na região estava para fechar as portas. Como sou viciado em tiro não podia deixar o esporte acabar. Foi, portanto, a junção desses dois motivos que fizeram que nós montássemos o clube Carcarás. A paixão pelo IPSC e a vontade de não deixar o esporte acabar – afirma Wamberto.

(Foto: site Jaime Saldanha) Clube de Atibaia, onde são ministrados os cursos do Águia de Haia

A fundação de um clube, no entanto, exige o cumprimento de algumas etapas. A primeira é escolher um local com boa infraestrutura e de preferência isolado, para que a vizinhança não reclame do barulho. Feito isso, é preciso criar um estatuto e eleger a diretoria. Em seguida, deve-se pedir um alvará de funcionamento para a Prefeitura e ir até a receita Estadual para abrir um CNPJ da empresa. Assim como os atiradores, os clubes também precisam ter certificados de registro (CR) próprios. Antes da concessão o local passa por uma inspeção, que ocorre de dois em dois anos, sempre que é preciso renovar o CR.

Os donos dos clubes ainda se comprometem a cumprir determinadas exigências para ficarem de acordo com a lei. Entre elas, manter registros atualizados dos associados praticantes de esportes de tiro; comunicar imediatamente à autoridade policial mais próxima e ao Comando da Região Militar (RM) de vinculação o uso de qualquer arma não registrada em suas dependências; remeter trimestralmente ao Comando da RM de vinculação mapas de controle de munição e informar, até 31 de dezembro de cada ano, a programação de competições para o ano seguinte.

Desafios do dia-a-dia

Cada clube tem seus contratempos. Uns com a infraestrutura, outros com as despesas. Mas todos eles enfrentam um problema grave, que atinge todos os envolvidos no tiro prático: o preconceito. “Os clubes têm muita dificuldade de arrumar patrocínios. Os poucos que ajudam não querem nem ser citados para não terem seus nomes envolvidos com armas de fogo. É complicado, mas as pessoas não veem o tiro prático como um esporte”, diz Robson Resende. Wamberto Lyrio concorda com o atleta do Espírito Santo. “Algumas pessoas colaboram com o clube. Mas é complicado por conta de toda essa política que associa o tiro com violência. Mesmo os que querem contribuir evitam vincular seus nomes ao tiro”, comenta.

(Foto: Luiz Gemo) Atletas realizam prova no Clube de Tiro Prático de Fraiburgo, em Santa Catarina

Contudo, um exemplo recente mostra que a discriminação em relação ao esporte pode ser superada. O MMA, que nada mais é do que a junção de todas as artes marciais, tem se tornado um esporte de massa no Brasil. A mídia tem grande importância neste crescimento. Hoje, canais de TV aberta transmitem lutas ao vivo e programas de MMA. Este é um caminho que pode ser explorado pelos atletas de tiro prático, mostrar à imprensa como realmente é o esporte e que ele nada tem a ver com violência.

Enquanto isto não acontece, os clubes precisam encontrar alternativas para sobreviver. A fonte de renda básica, assim como em qualquer clube, são as mensalidades dos sócios.

- O clube se mantém com as anuidades dos associados. Nós, aqui do Clube de Fraiburgo, temos dois tipos de sócios: patrimoniais e participantes, que pagam anuidade no valor de R$ 180,00 e R$ 360,00, respectivamente. Pode até parecer barato, mas o custo de manutenção do clube de tiro é baixo – diz Luiz Gemo.

Na maioria dos casos, os clubes precisam da receita de outras atividades para manter as contas em dia. No caso da Associação de Tiro Duque de Caxias, os estandes são alugados para empresas de segurança. O Águia de Haia, de São Paulo, completamente a receita do clube com a arrecadação de vendas de produtos e ministração de cursos.

(Foto: Wamberto Lyrio) Dia de provas no Clube Carcarás

- A essência de um clube é o espírito esportivo e isso não pode ser deixada de lado. Quando fundei o Águia de Haia meu objetivo era criar um espaço onde os proprietários de armas de fogo pudessem aprender a manuseá-la de forma correta e consciente. Além de poderem estar em contato com o esporte e usarem os estandes para diversão. O clube em si não é um negócio rentável, mas temos arrecadação com outras atividades. Pensando nisso, temos o sonho de uma sede de campo, com infraestrutura para que as esposas e filhos dos associados também possam usufruir do clube enquanto o atleta faz seus treinamentos – diz Roberto Saldanha, fundador e gestor do Águia de Haia.

De olho no futuro

Um dos sonhos dos donos de clubes de tiro é receber uma prova nacional. Com as mudanças no regulamento do Campeonato Brasileiro, a possibilidade do sonho se tornar realidade aumenta, já que agora serão cinco etapas, uma em cada região do país.

- Existe um rodízio entre regiões, federações e clubes para determinar quem irá sediar a prova. Na assembleia em que foi decidido que o Rio sediaria a prova do Brasileiro deste ano, o nosso clube se ofereceu e ganhou o direito de organizar a prova. Claro, é preciso ter um mínimo de infraestrutura. São obrigatórios, no mínimo, 18 estandes – comenta Denise Silva.

O Clube Carcarás ainda está no começo, mas já pensa no futuro e almeja receber uma prova grande do campeonato brasileiro:

(Foto: Wamberto Lyrio) Pistas do Clube Carcarás

- Nós temos um espaço muito bom. São 16 pistas. Sempre que organizamos alguma prova nós deixamos as coisas em ordem para que aconteça tudo certo. Falta um pouco de apoio para que o clube receba uma prova nacional, mas já estamos pensando nisso e acredito que no ano que vem já tenhamos essa conquista – diz Wamberto Lyrio.

Como em qualquer negócio, mesmo que se tenha paixão pela atividade, os clubes trarão problemas aos gestores. Mas a alegria de ver o seu clube crescer de forma saudável é recompensadora. Além disso, os momentos compartilhados entre donos, fundadores e sócios são únicos e indispensáveis na vida de cada um dos envolvidos.

- O que mais me atrai no tiro prático é, sem dúvida, o dinamismo que me proporciona. Fora isso, o esporte me propicia momentos de prazer e lazer junto dos amigos e familiares, já que toda a atividade vem pautada em compromisso, responsabilidade e convivência em comum com os interesses de todos que nos rodeiam – afirma Luiz Gemo.

E a melhor forma de conquistar um prazeroso ambiente como este é cultivar o espaço com paixão e dedicação.

- Temos que colocar um pouco do coração no meio para que tudo funcione de forma eficaz e flua com mais naturalidade. O clube se tornou a minha paixão e aqui temos preocupação com cada associado. Se alguém está com problemas, procuramos ajudar para manter a hegemonia do grupo e uma consciência social – comenta Roberto Saldanha.

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