A partir de agora, iniciaremos aqui no site Guga Ribas uma nova série de artigos em que relembraremos competições que, de alguma forma, marcaram a minha trajetória e a de outros atletas brasileiros ao longo destes anos em que estou no mundo do Tiro Prático. Tentarei sempre trazer histórias novas, curiosas, divertidas ou que me trouxeram algum ensinamento em campeonatos passados.
No primeiro artigo desta série relembrarei o Campeonato Europeu 2010, que aconteceu em Belgrado, na Sérvia, de 12 a 18 de setembro daquele ano. Além de ter conquistado o título, o que foi de suma importância na minha carreira, contarei algo que poucos sabem, à exceção daqueles que lá estavam e dos que me acompanham de perto nas provas pelo Brasil.
Primeiramente, falarei do campeonato em si. O Europeu 2010 foi a “abertura” do último período de preparação para o Mundial do ano seguinte. Faltava apenas um ano para a grande competição do circuito do IPSC e era o momento em que os principais nomes que estariam na Grécia, sem contar dos americanos e filipinos, mediriam forças em uma prévia do que seria a briga pelo título em 2011.
Eu tive a felicidade de vencer aquele campeonato, em uma disputa acirradíssima com o tcheco Zdenek Henes, que veio a ser campeão mundial em 2011, e o italiano Davide Cerrato, que fez uma excelente prova no Europeu.
Foi uma competição muito técnica, em que todos os fundamentos foram testados. Foi, sem dúvida, o melhor campeonato que disputei até hoje. As pistas eram belíssimas, bem-feitas, e muito inteligentes, permitindo que os atiradores traçassem diversas estratégias na maioria das pistas. Além disso, tudo estava bem organizado. Tivemos um ótimo atendimento aos atletas, transporte fácil até o estande, as refeições eram deliciosas e o posto médico era muito bem equipado e preparado para atender a qualquer emergência.
O Acidente
Pela primeira vez, falo publicamente do acidente que aconteceu comigo dois dias antes do início das provas. No sábado, durante um treinamento, fiz um disparo acidental que atingiu minha coxa e meu dedo do pé, me causando uma séria lesão, pondo em risco até minha participação naquele campeonato.
Na verdade, o disparo foi decorrente de uma sequência de erros. Ainda no Brasil, o cão (hammer) da minha arma começou a cair durante um treino. Meu armeiro não tinha tempo hábil para mexer no equipamento e decidi fazer o conserto eu mesmo. Este foi o primeiro erro, pois eu não deveria ter mexido. Apesar de ter um bom conhecimento técnico, ele é suficiente apenas para auxiliar meu armeiro. No entanto, mexi na arma, e pareceu que estava bom. Viajei desta forma para disputar o Europeu.
Já na Sérvia, durante o treino, saiu o primeiro tiro acidental quando fui retirar o carregador da minha arma. É sempre um susto uma situação desta, mas o disparo foi em direção segura. Fiz novos testes com a arma e não vi nada errado. Ao invés de desmontar o equipamento e procurar se havia um problema, admiti que eu tinha colocado o dedo no gatilho. Este foi meu segundo erro, pois, apesar de já ter feitos disparos acidentais, eles jamais saíram enquanto eu municiava a arma.
Continuei o treino e cometi o terceiro erro. Como o drill (exercício) que eu fazia era muito repetitivo, acabei sendo displicente e acionei a trava – que estava mais dura do que o normal – já no movimento de trazer a arma para o coldre. Foi aí que aconteceu um novo disparo acidental. Desta vez, fui atingido pelo projétil, que rasgou minha coxa e atravessou o segundo dedo do meu pé.
Por sorte, o estande de tiros onde seria o campeonato é de um esquadrão antiterror da Sérvia. Os médicos e a enfermaria do local estavam muito bem preparados para atender este tipo de acidente. Recebi o atendimento, tomei os medicamentos e vacinas necessárias e voltei para o estande. O acidente tinha ocorrido por volta das 9h e às 16h, depois de resolver todos os trâmites médicos e policias obrigatórios, eu estava de volta e pronto para treinar.
Desta vez, testei exaustivamente o equipamento até descobrir o problema. E, depois de mais três disparos acidentais – todos em direção segura – finalmente descobri o problema e o resolvi. No entanto, na minha cabeça, eu estava fora da disputa pelo título do Europeu, pois tinha certa dificuldade para me locomover e o dedo quebrado doía bastante. Além disso, o dedo também sangrava muito ao longo do dia e era necessário refazer os curativos diariamente.
Fui avaliado pelo Dino Evangelinus, presidente da IROA, que pediu autorização ao diretor regional brasileiro para que me liberassem para a disputa do campeonato. Fui autorizado a competir, o que surpreendeu bastante os atletas que lá estavam. No entanto, eu trazia a bagagem do automobilismo, em que, por algumas vezes, tive que competir contundido após algum acidente. Fui acostumado a estar sempre no meu limite e aquela era uma situação de certa forma comum para mim.
Resultado e lições
De certa forma, o acidente me tirou bastante a pressão do campeonato, já que não o encarava mais com a possibilidade de vencer, mas apenas com vontade de competir. Para minha sorte, os cenários que exigiam deslocamentos permitiam que eu traçasse estratégias para não perder muito tempo. Isso foi essencial, principalmente nos dois primeiros dias, quando meu pé ainda doía muito.
Ao fim do primeiro dia, tive uma grande surpresa: eu estava em primeiro lugar. Isso gerou algum espanto nos outros atletas, o que foi, novamente, positivo para mim. Isso porque eu estava atirando sem pressão e o fato de eu estar em primeiro, machucado, colocou um “peso” enorme sobre os outros competidores. No segundo dia me mantive em primeiro, mas sempre com diferenças bem pequenas para o segundo colocado. Isso se estendeu até o quarto e último dia, quando fiquei à frente do Zdenek por uma porcentagem bem pequena.
Ao contrário do que se possa imaginar, a minha lesão, de fato, me ajudou ao invés de me atrapalhar. Foi um trunfo naquele campeonato. Por minha experiência no automobilismo, desenvolvi a capacidade de inibir a dor durante a competição. Então, no fim das contas, isso me atrapalhou pouco, com exceção de algumas pistas mais longas.
Sem dúvida, ganhar um Campeonato Europeu, principalmente com o nível de competitividade que foi este torneio em si, foi algo incrível. Fiquei muito feliz e tenho ótimas lembranças do campeonato e da cidade de Belgrado, belíssima e de povo muito alegre e receptivo.
Acredito que a grande lição que fica é a questão da segurança. O acidente e o perigo ao qual me expus foram gerados por mim mesmo, pela displicência que tive quanto às questões e normas de segurança no manuseio do equipamento. Venho aqui contar esta história e espero que outros atletas, mesmos os mais novos ou os tão experientes quanto eu, possam tirar dela uma lição e atentar sempre para os itens de segurança de nosso esporte.
Veja logo abaixo do post a galeria de fotos e o vídeo com minha participação no Campeonato Europeu de 2010.
Um abraço e até a próxima,
Galeria de Fotos
- Guga receives treatment after the accident
- Guga no Campeonato Europeu 2010, na Sérvia
- Equipe brasileira no Campeonato Europeu 2010
- The accidental shot hit Guga’s thigh and a toe of his right foot
- Guga celebrates the 2010 European Championship victory
Vídeo


















