É possível ser o melhor do mundo no IPSC sem a rotina de treinamentos, a preparação e a dedicação de um atleta de ponta? No caso do americano Blake Miguez, sim. Ao afirmar que atirar é apenas um hobby para ele, o atual campeão mundial na divisão Standard deve causar inveja a um grande número de atiradores que se dedicam profissionalmente ao esporte. No entanto, Blake o faz sem desmerecimento. Simplesmente, reconhece ter um talento nato.
Blake Miguez herdou a paixão por armas de fogo de seu pai. Foi ele quem levou o pequeno Blake, aos oito anos, para assisti-lo atirar em ranges de tiro. Aos 12 anos, o garoto já competia no Tiro Prático. “Após alguns anos no IPSC eu percebi que tinha um talento natural para armas de fogo”, diz o americano. Foram oito anos de competições pela divisão Open até optar pela Standard.
- Eu gostei do desafio na Standard devido ao grande recuo e ao aparelho de pontaria. Eu pensei que aqueles que não atiram no IPSC poderiam se identificar mais facilmente com o meu tiro se eu atirasse com uma arma Standard em vez de uma Open. Também percebi que a Standard seria a divisão que mais teria competições pelos anos seguintes – afirma.
Apesar do talento e da vontade de atirar em diversas competições do calendário do IPSC, o tempo trouxe responsabilidades ao jovem atirador. A transformação do esporte em hobby não foi por acaso. Sua família é dona de empresas no campo petrolífero e Blake dedica a maior parte de seu tempo a exercer a profissão de advogado da corporação. São 40 horas de trabalho semanais, o que impede que ele treine regularmente. “Antes de uma grande competição tento ir para o range umas duas vezes por semana para me aquecer”.
As dificuldades da vida agitada, aliás, influenciaram em suas participações nos Mundiais anteriores, em 2005 e 2008, quando terminou em sétimo e em segundo lugar, respectivamente. Na primeira vez, Blake estava começando as aulas na faculdade de Direito. Assim, atirou rapidamente no pre-match e teve que voltar aos Estados Unidos para que não perder o curso.
Três anos depois, não pôde se preparar para o Mundial. Havia passado o verão americano estudando para um dos testes mais difíceis do país, o Louisiana Bar Exam, que seria pouco antes da competição. Para sua própria surpresa, terminou em segundo lugar, após ter liderado os quatro primeiros dias. “Daquele dia em diante, eu soube que podia ganhar e disse a mim mesmo que venceria o Mundial na Grécia em 2011”.
E foi exatamente o que Blake Miguez alcançou. A preparação para o Mundial foi curta. Com uma “queda” pelo estilo europeu de tiro, Blake participou do Campeonato Europeu 2010, na Sérvia, do Infinity Open 2011, na Alemanha, e do Nacional Grego 2011. Foi vice-campeão no primeiro e campeão nos torneios seguintes. O título no Mundial de IPSC 2011 foi apenas consequência desta breve preparação, além de sua prática habitual.
- Ganhar a competição foi uma grande conquista para mim. Eu não me arrependo de derrotas passadas, porque minha carreira profissional vem sempre em primeiro lugar. Eu estou apenas contente por ter sido capaz de ter tido bons resultados em ambos – diz Blake Miguez.
O atleta voltou para casa com duas medalhas no peito: a de campeão individual e por equipes Standard com o time americano. Mesmo sem treinar sempre com os companheiros, Blake lembra que eles atiram regularmente nas competições pelo país e que, por terem se tornado amigos, conhecem seus pontos fortes e fracos. “Apesar de o IPSC ser um esporte individual, nós nos apoiamos uns aos outros ao longo de todas as provas. Nós sempre tentamos nos animar e nos encorarjar uns aos outros por toda a competição”.
Para o próximo Mundial, em 2014, Blake afirma que, novamente, não terá tempo para uma preparação especial. Com o crescimento das empresas em que trabalha, o tempo livre será escasso. Apesar disso, ele terá uma motivação especial para tentar manter o título da divisão:
- O próximo Mundial será na Flórida. Eu já competi naquele range muitas vezes e vou continuar a fazê-lo ao longo dos próximos três anos. Pela primeira vez, vou competir na minha casa. Será uma grande honra para mim defender meu título em solo americano. Se Deus quiser, pretendo seguir com outro título mundial na Standard em 2014 – afirma.
Fora do mundo do Tiro Prático, Blake Miguez teve uma experiência que o tornou conhecido para diversos outros atiradores. Em 2010, foi convidado para participar do reality-show “Top Shot”, do History Channel. Para o programa, Blake precisou ficar confinado por cerca de um mês com outros 15 participantes, disputando competições e duelos de tiro, com diferentes armas. Apesar da sétima colocação, ele acredita que pôde ter uma realização muito maior do que aperfeiçoar seu tiro:
- O show foi uma experiência muito divertida. Ele me deu a oportunidade de ajudar as organizações que auxiliam os jovens nos Estados Unidos e participar de provas de tiro em eventos de caridade. Além disso, me trouxe notoriedade para milhões de atiradores em todo o mundo fora do IPSC. Top Shot é um teste de muitas armas diferentes, por isso não ajudou muito como treino, mas foi importante para aprender a lidar com a pressão da concorrência. O show te dá uma experiência bem forte em lidar com a pressão de uma competição – disse.



